O designer humilde

abril 06, 2017


Como acadêmicos, nós temos nossos posicionamentos acerca de nossos assuntos de interesse, refletidos em linhas de pesquisa e textos-chave que sempre recomendamos àqueles que começam a trabalhar conosco.

Como professora novata, trago em mim muito daqueles com os quais aprendi ao longo da minha ainda curta trajetória acadêmica, e sei que muitos dos conceitos nos quais acredito e que defendo em aulas estarão marcados na memória dos alunos - não tem jeito, a comunicação e a personagem de mim mesma que se apresenta como professora tem caráter próprio e bastante peculiar, possivelmente bastante diferente da Gi do dia-a-dia.

De vez em quando, me pego bradando aos quatro ventos acerca de conceitos que não sei exatamente de onde vieram, embora também brade aos mesmos quatro ventos sobre a necessidade de sempre nos basearmos em autores que são referência no assunto discutido. E eventualmente, deparamo-nos com obras que falam exatamente do mesmo conceito que acreditamos - um destes momentos ocorreu quando li, após a indicação de uma aluna, O Designer Humilde, de Charles Bezerra. e minha eu-acadêmica pode dar um longo suspiro, agradecendo mentalmente por este texto ter sido escrito.

Composto de precisas 80 páginas e com uma diagramação fácil, é uma leitura rápida e prazerosa. A primeira edição data de 2008, e embora estejamos a quase dez anos de distância de sua escrita, o texto continua extremamente válido, e as reflexões permanecem, assim como as dúvidas sobre o momento no qual estamos vivendo.

Desde o título, o livro já tinha minha atenção. A relação entre humildade e design faz sentido para mim desde quando tive contato pela primeira segunda vez com Um Prometeu Cauteloso, artigo que é resultado de uma fala do sociólogo Bruno Latour em um evento de design. Essa ideia de humildade já andava comigo desde quando resolvi estudar budismo, e assim como todo acaso e intenção, que são consequências uma da outra, passei a ver uma conexão muito palpável as ideias.

Bezerra traz estas conexões de maneira leve e fluida, citando suas referências com muita simplicidade e dando uma clareza quase visual ao seu ponto de vista. Impressão de designer lendo texto de designer, talvez... A discussão inicia-se na definição de problemas de design e no fato de que somos, na verdade, estudantes de problemas, e não de disciplinas. Passamos pelas relações entre simples e complexo e sobre como a complexidade está na simplificação - aqui também vejo um pouco do que Flusser e Cardoso trazem em seus textos -, por criadores super-heróis, ética e, por fim, chegamos à prometida humildade, encerrando com uma discussão acerca do futuro. Fico na dúvida de onde encaixar esta leitura - nos primeiros semestres, nas aulas de sustentabilidade, em momentos que demandam metodologia projetual. Talvez em todos, dado que os problemas de design são frequentes em cada uma destas etapas.

Ao encerrar a leitura, perguntava-me quem era o autor e fiquei imaginando se encontraria o e-mail dele pela internet, a fim de fazer algumas perguntas sobre as impressões dele acerca da humildade no design, após este tempo todo, e publicá-las neste blog, à lá Henry Jenkins. Deparei-me, no entanto, com um professor relativamente online, que continua suas discussões em um blog e em mais dois outros títulos, A Máquina de Inovação e Inovação Holográfica. Desisti de tentar contatá-lo, ao menos por enquanto, e coloquei o blog e os livros estão numa lista de leitura. Uma extensa fila.

E não há razão para lamentar a extensa lista, ou nenhuma outra das grandes questões que compõe o paradigma do design contemporâneo - como o autor mesmo sugere, é preciso olhar com otimismo para os problemas a serem enfrentados e seguir em frente, acreditando que é possível desenvolvermos soluções melhores e adequadas para o futuro.

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